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O HERÓI AUSENTE

“Lembro da minha infância como se fosse ontem. Quando criança o tempo custa a passar e quando passa, sentimos que passou rápido demais.

Está é a fase mais gostosa e mais frágil da nossa vida. Onde nossos princípios e personalidades são formados.

Nessa fase, somos altamente influenciáveis e dependemos de um guia.

Basta analisar alguns fatos para perceber o tamanho dessa influência. Eu quando criança, após assistir um filme de Ninjas, saia para o pátio de casa dando estrelinha e amarando a camisa na cabeça. Juntava um pedaço de pau e amarava em outro, colocava embaixo do braço, diversas vezes acertava no próprio joelho, as habilidades precisavam ser melhoradas.

Por sorte escolhi outro caminho, não me tornei um mestre das artes marciais, mas me tornei algo muito maior e poderoso. Um momento de convicções.Minha infância foi dura, mas foi feliz e aconchegante.

Por outro lado, temos crianças que só presenciaram solidão, medo e angústia, crianças são seres que repetem o que vêem e o que escutam. A criança se adapta ao ambiente e copia as influências. Se ela vê e se encanta com as habilidades de um ninja na tv, ela vai tentar fazer igual. Se ela vê o pai batendo na mãe, ela em algum ponto da vida vai repetir o que aprendeu quando criança.

Uma criança precisa de um ambiente feliz para crescer, essa é a formula para salvar o mundo e a humanidade.”

A INFLUÊNCIA DO HERÓI PRESENTE

Toda criança sonha em ter super-poderes. Toda criança sonha em ser um super-herói. Essa mesma criança um dia irá crescer e terá a chance de ser um super-héroi.

Não será um herói para o mundo, não desviará de balas, não voará pelos céus e não terá olhos de laser. Mesmo assim, com todo seu limitado poderio, terá alguém que o verá como o homem mais forte do mundo, capaz de fazer qualquer coisa.

Será o super herói dele mesmo. De uma parte dele mesmo. A parte dele que sempre quis ser um herói deu vida a uma parte que precisa de um herói.

Com a separação das partes, o homem perceberá que a parte que se separou dele e adquiriu consciência,  é a melhor parte da sua alma. Ela se desprendeu, mas é sua, é sua responsabilidade até que a última chama de vida em você se apague.

O que era uma semente criou vida, começou a engatinhar, começou a andar e a correr, quase sempre em sua direção, a fazer o mesmo que você faz, a copiá-lo pois sabe que o que você  faz é o certo.

A criança confia naquele herói. Infelizmente, essa criança faz parte da “geração de sorte”: a sorte de ter um pai presente, um pai que preferiu uma família a um rabo de saia, um pai que assumiu a responsabilidade de ser um pai e não apenas se reproduziu pela propagação da espécie.

Você não precisa de super poderes para ser um super-herói. Você pode ser o herói daquele que mais te ama e te admira. O homem que não faz o máximo para ser o herói da vida que ele mesmo criou, não pode ser considerado um homem.

O HERÓI AUSENTE

Do outro lado da cidade o menino brinca em frente a TV. Seu programa preferido está passando, de repente ele vê-se na obrigação de aumentar o volume.

O volume já está no máximo. Era um dia quente de primavera, sua estação do ano preferida, podia sentir o cheiro das flores, sentia o frio indo embora e os raios do sol esquentavam o seu rosto.

O volume da TV estava no máximo, mas já era impossível prestar atenção. Os gritos e desaforos eram ensurdecedores. Por um momento ele teve a impressão que até mesmo seus personagens falavam mais baixo como se prestassem atenção no que estava acontecendo.

Entre as palavras ele só ouviu a frase: – Estou indo embora.

A televisão foi desligada. Ele sem entender olhou para a mulher tremula ao sofá, chorando sem parar. O menino estava aquecido com o calor do sol, por isso foi difícil entender o que era aquele frio na barriga que ele sentia pela primeira vez, aquele medo que sentiu pela primeira vez. A única coisa que ele sabia da vida, era que quando estava com medo, somente uma pessoa o fazia passar. Seu herói.

Enquanto a mãe o abraçava, o menino circulava a sala com os olhos, na procura daquela mão que estava sempre ali para ajudá-lo. Neste momento uma sombra ficou entre ele e os raios do sol que o cegaram por um momento.

Não conseguia reconhecer quem era, era apenas uma silhueta, que de repente virou de costas sem hesitar e, começou a distanciar-se.

O menino apenas observava aquela silhueta se afastar cada vez mais. Seu corpo instintivamente moveu-se mas foi segurado pela mãe.

O que começou como o melhor dia do ano e o inicio da sua estação preferida do ano, o cheiro de flores que sempre o  lembravam da pracinha da cidade, dos sorvetes, das pipas das partidas de futebol, todas essas doces recordações virariam amargas lembranças.

O futuro foi trocado pela imagem de um herói abandonando seu universo.

A criança tentou gritar:

– Não vá! Mas sua voz não era forte o bastante.

O herói abandonou a cidade. O herói deixou o universo que ele era responsável a mercê do destino. Trocou os sorrisos sinceros de quem o amava por bebidas, mulheres e jogatinas. Morreu velho e sozinho em um bar qualquer após uma briga sobre uma aposta. Em seu último suspiro o agora vilão, nem mesmo lamentou-se, ninguém choraria por ele, ele mesmo preferiu a solidão de uma morte fria e silenciosa.

Em algum lugar, próximo do local, mas distante no tempo, ouve-se o tocar de um telefone.

– Aqui é da policia, seu filho foi preso novamente.

Ao ouvir isso levanta aflita uma já idosa mãe. A mãe treme ao tentar arrumar-se. Lamenta-se pelo pai que deu ao filho, lamentou a vida toda, tentou preencher o vazio do herói mas somente um pai é capaz de ocupar esse lugar.

O menino tornou-se um bandido. Acabará de sair da cadeia, sua mãe mais uma vez, esvaziou as economias para pagar a sua fiança. O menino gritou com a mãe e logo sumiu em uma esquina da vida. Foi a última vez que a mãe o viu com vida.

É preciso procurar culpados? Essa é uma fantasia?

– Essa é uma realidade tão constante que já entrou na normalidade.

O MENINO HERÓI

O telefone toca:

– Pai por favor preciso de ajuda.

O pai tira o telefone do ouvido, prontamente levanta-se e fazendo uso das suas habilidades ninjas veste-se com extrema velocidade.

– A luz do quarto é acessa, enquanto o herói termina de se vestir, sua mulher diz:

– Querido, aonde você vai?

– Nosso filho me ligou agora dizendo que precisa de ajuda, não sei o que é mas já estou indo!

– Precisa de ajuda? Ele só foi dormir na casa do colega, depois dele insistir um mês você deixou, e agora já vai fazer cena?

A mãe pegou o telefone e continuou escutando a ligação.

– Aham, sim, sim eu digo a ele, boa noite.

– E então mulher o que ele queria?!?!?

– Ele apenas pediu para você levar o caderno de matemática dele amanha antes da aula que ele esqueceu.

– Apague a luz e volte a dormir.

A luz foi apagada, a cidade estava segura, o sono dos inocentes estaria sempre protegido por esse vigilante sem capa mas sempre em prontidão.

O pai demorou a dormir, no escuro e silencio da noite, lembrou das últimas lembranças que tinha do pai e, de como encontrou a resposta para lidar com o fato de não ter tido um pai em sua vida.

Tornou-se o melhor pai e maior herói da vida dos seus filhos.


 

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J.F Rozza View more

J.F. Rozza – Empresário, Investidor, Educador Financeiro e escritor, formado na vida.
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